Portuguese

Ontem foi um dia estranho. Eu não consegui sair da cama. O Humano que vive comigo pegou-me ao colo. Eu tentei colocar as minhas pernas para baixo mas elas não obedeceram. Ele disse, “Não te preocupes, eu estou contigo, amigo”, desceu as escadas comigo e saímos.
Ele foi tão leal.
Eu precisava muito fazer xixi, só tinha que chegar lá, onde ele me baixou. Normalmente eu não faria nada ali, mas decidimos fazer uma excepção à regra.

Comecei a andar no estacionamento na direcção daquele sitio onde todos os cães como eu vão fazer cocó. Senti as minhas pernas a arrastarem-se pelo chão. “Que estranho”, pensei. Então, de repente, tive muita vontade de fazer cócó. No meio do estacionamento. Normalmente eu não faria nada ali também. É contra as regras.

O meu Humano limpou a sujidade. Ele é bom nisso. Fiquei com vergonha, olhei para ele e ele disse: “Queres continuar a andar, amigo?”
Eu quis, mas foi surpreendentemente difícil. Quando chegámos ao fim do estacionamento, a minha cabeça estava a girar. Tentei escalar o montinho e quase caí. Não estava a entender o que estava a acontecer. Ele baixou-se de novo e passou-me a mão. Foi mesmo bom. Pegou-me ao colo e levou-me para casa.
Eu ainda estava confuso e a minha cabeça estava um pouco no ar, mas estava feliz por não ter de andar o caminho de volta. De repente pareceu-me uma distância impossível.
Eu fiquei tão feliz por me deitar na cama.
O meu humano fez-me um carinho, e disse: “Eu estou contigo, amigo. Estou contigo”.
Eu adoro como ele me faz sentir. Eu sei que ele me ama. Ele faz tudo ficar melhor.

Ele tocou-me nas patas e puxou o meu lábio para cima.
Disse: “Amigo, estás com frio?”
Eu estava. O meu rosto estava frio, as minhas patas também. Ele mandou uma mensagem para algumas pessoas e voltou para me fazer um carinho.

Alguns minutos depois, outra pessoa chegou. É um dos meus preferidos e seu nome é Jay. Ele fez-me uma festa e disse para o meu Humano: “Queres um cobertor?” Eles colocaram-me o cobertor e, uau… aquilo foi bom. Relaxei, eles passaram-me a mão e começaram a segurar as lágrimas.

Eu nunca quis que eles chorassem, isso parte-me o coração. É o meu trabalho fazê-los felizes, e eu estava só um pouco cansado e com frio. Eu dormia e acordava e eles estavam sempre lá, certificando-se de que eu estava bem, e conversando um com o outro.

Durante todo o dia, o meu humano fez alguns telefonemas, e passou bastante tempo comigo. Eu o ouvi dizer, “9 da manhã, amanhã… tá… sim… Eu aviso se algo mudar. Obrigado, Dr. MacDonald.” Ele ligou para mais alguém e disse: “Desculpa, eu tenho que cancelar hoje à noite.” Depois eu comecei a cair no sono, eu acho que ouvi ele a chorar um bocadinho, de novo.

À noitinha, mais algumas das minhas pessoas preferidas vieram. Eles foram tão amáveis. Eu lambi as lágrimas deles quando chegavam perto do meu rosto. Eles sussurraram coisas doces no meu ouvido, e disseram-me que eu era um bom rapaz. Mais tarde, senti-me bem o suficiente para me levantar e andar até à porta para ver quem estava a chegar. Foi mais exaustivo do que eu me lembrava, mas eu adorei ver toda a gente. Eu ouvi o meu Humano dizer algo do género, “Foi a primeira vez que ele se levantou sozinho, hoje.” Todos pareciam felizes que eu estivesse fora da cama. Eu também mas, … depois da excitação passar, foi difícil caminhar.

Depois de que o último visitante se foi, o meu Humano levou-me para fora para fazer o que ele chamava  “meu negócio”. Nós voltámos e quando chegámos ao primeiro degrau da escada, ele parecia ter duplicado de tamanho e ser dez vezes mais alto do que eu me lembrava. Olhei para o meu Humano, e ele olhou para mim. E disse, “Não te preocupes, amigo, eu levo-te.” E levou-me ao colo.

Depois ficou ainda melhor! EM vez de dormir na minha cama, ele chamou-me para dormir na cama DELE. Deixem-me repetir:
Eu pude dormir na cama com o meu Humano! Eu nunca vou sair do seu lado.
Mas eu não estava a sentir-me bem e às vezes era difícil respirar. Parece ter começado há uns meses atrás. Estávamos a brincar a correr atrás da bola e eu simplesmente apaguei. Eu não sei o que aconteceu, mas acho que parei de respirar. Conseguia ouvir o meu Humano chamar meu nome. Eu não conseguia mover nenhum músculo. Ele levantou-me a cabeça e olhou-me dentro dos olhos. Eu podia vê-lo, bem ali, mas não podia lamber-lhe o rosto. Ele disse, “Benny, estás aí?” Eu não pude responder. Ele olhou e disse: “Fica tranquilo, amigo, eu estou contigo. Está tudo bem.” Eu comecei a entrar para dentro da escuridão, mas então os meus pulmões deram um suspiro profundo e eu consegui ver de novo.

Nós fomos a alguns médicos e, desde então, tenho ouvido muitas palavras como “cardiomiopatia”, “cancro” e “falência do fígado”. Tudo o que eu sei é que, às vezes, eu sinto-me bem, e outras… bem… simplesmente não. O meu Humano  dá-me comprimidos.

Esta manhã,  ouvi o meu Humano levantar -se e tomar banho. Ele voltou para o quarto e estava a  cheirar bem. Ajudou-me a levantar, mas desta vez eu consegui sozinho. Eu fiz o “meu negócio” e voltámos para dentro. Ele abriu uma lata de comida de cão húmida muito, muito deliciosa!

Jay apareceu de novo. Que surpresa boa! Ele e meu Humano pareciam preocupados, mas todo mundo estava a fazer-me festinhas. Parecia um pouco  uma peça de teatro em que todos os actores estavam tristes, mas fingiam estar felizes. Bem, depois disso, outra pessoa chegou. Ela estava com calças de médico e eu encostei-me nela.

Eu escutei eles conversarem. Todos viram as minhas gengivas e sentiram as minhas patas. Eu escutei a doutora de calças dizer, “A decisão é sua, mas ele já está muito “naquela janela”. Eu não te quero pressionar, mas vendo a falta de cor dele, estou honestamente chocada que esteja a levantar-se. Sem contar as pastas e o beiço, olha aqui…”, ela apontou para a minha cara, “Isso deveria estar cor-de-rosa. Está quase branco, a caminho do amarelo.”

O meu Humano e Jay foram lá para dentro conversar sobre algo. Quando voltaram, ouvi o meu humano dizer, “Eu concordo. Eu não quero esperar até que ele esteja em absoluta agonia.” Então fomos para dentro. Verdade seja dita, eu estava a sentir-me muito mal, mesmo que estivesse em pé e a andar. Parecia que toda a minha cabeça estava fria, as minhas patas estavam a congelar e as minhas patas traseiras não estavam a funcionar bem.

A doutora de calças disse, “Eu só vou colocar isto nos músculos dele. É um sedativo. Depois eu volto e pode acarinhá-lo até que ele durma.” O meu Humano beijou-me o rosto e olhou-me nos olhos. Ele estava a tentar não chorar. A doutora de calças deu-me uma injecção de alguma coisa na perna. Eu apenas olhei para o meu Humano. Ele é tão incrível. Eu sempre vou estar ao lado dele.

Ele e o Jay fizeram-me festinhas e disseram-me as coisas mais fixes – que bom cão que eu era, que bom trabalho eu havia feito, como eles estavam gratos de me terem tido na vida deles. Depois de um tempo,

A minha mente começou a baralhar-se. Eu olhei de volta paro o meu humano. Eu amo-o tanto.

Eu adormeci de novo. Eu posso ver o meu humano. Eu o amo tanto. Eu sempre vou estar ao seu lado. Ele sabe disso. Estou com sono. Eu cuidarei sempre dele com todo o meu coração…

A doutora de calças disse, “Ele deve ter uma vontade incrível de ficar consigo. Ele está realmente a lutar. É impressionante.” O meu Humano engoliu o choro e disse, “Eu sei, ele  vive por mim. Ele é a alma mais devotada que já conheci…” Nós colocámos as nossas cabeças juntas e fechámos os olhos. Eu não sei descrever. Olhámo-nos de novo. Eu senti-me a entrar naquela onda, talvez deitar fosse melhor. O meu Humano me ajudou. Foi tão booommmm.

Eu senti ele e o Jay a fazerem-me festinhas e falarem comigo. Eles amavam-me tanto! Quão sortudo sou? Depois eu senti milhares de mãos a acariciar-me. Todo o mundo que eu conhecia e amava estava lá, a passar-me a mão, a coçar a minha orelha e aquele lugar debaixo da minha coleira que faz as minhas pernas mexerem. Todo a gente devia experimentar isso. É simplesmente incrível!

Depois senti a doutora de calças tocar na minha perna. Contei que o meu Humano teve que pagar para consertar os meus dois joelhos? Eles são de titânio e ajudaram-me, mas sabe… tenho-os sentido estalar ultimamente.

Com toda a gente a passar-me a mão, a doutora de calças espetou outra agulha na minha perna, mas desta vez, enquanto o líquido entrava, as minhas pernas ficaram curadas! Os meu joelhos estavam perfeitos! E à medida que eu sentia ele espalhar-se pelo meu corpo, o meu cancro desapareceu! E o meu fígado estava melhor! E finalmente, até o meu coração estava inteirinho e saudável! Eu senti-me livre de todas as doenças. Incrível!

Eu vi o meu humano, Jay e a rapariga que vive na nossa casa, Shelly. Eles pareciam estar a debruçar-se em algo. Eu fui ver o que era. Parecia… eu não sei. Parecia-se comigo, mas eu parecia estar a sentir-me bem doente, ou exausto. Parecia estar a sofrer.

Posso dizer que o meu humano estava aliviado e muito, muito triste ao mesmo tempo. Eu amo-o tanto. Eu olhei paro o que parecia comigo e olhei para ele… acho que ele estava triste por aquele outro cão ali. Pulei pelo quarto, feito um palhaço, mas parecia que eles queriam ficar quietos e focar-se naquele outro que eles estavam a passar a mão e a beijar.

Mas o meu Humano estava definitivamente triste. Eu encostei-me a ele, como havia feito um milhão de vezes, mas não foi a mesma coisa. Parecia que o corpo dele era uma nuvem e eu atravessei-o. Então aproximei-me dele, sentei-me como um bom menino e o meu coração sussurrou para o seu, “Não te preocupes, Amigo. Eu estou contigo.”

Eu nunca vou sair do seu lado. Ele sabe disso.